ALTA ANSIEDADE – Velocidade imediata, local: fora de mim

Por Renato Rocha Mendes. Ilustrações Fido Nesti

A tecnologia e a internet modificam velozmente a realidade. Essa transformação está no centro de uma parte relevante da produção cultural e científica dos nossos dias. Uma pergunta surge sob a perspectiva da psique humana: quais são os impactos dessa mudança no comportamento dos indivíduos que habitam as grandes cidades? A ansiedade surge como uma reação comportamental de características adaptativas a essa realidade em profunda transformação. Por volta de um terço da população adulta relata sofrer de ansiedade e aproximadamente um quinto sofre com problemas de transtornos de ansiedade.

O conceito de “modernidade líquida”, pensado por Zygmunt Bauman (1925-2017), emoldura um tipo de “realidade ansiosa”. É comum pessoas confundirem a ansiedade com transtornos de ansiedade sérios como as fobias, a síndrome do pânico, o transtorno de ansiedade generalizada, o transtorno obsessivo-compulsivo ou o transtorno de estresse pós-traumático.

A ansiedade pode ser reconhecida como uma emoção básica, ao lado da felicidade, tristeza ou raiva, e geralmente é desenvolvida nos seis primeiros meses de vida, segundo Daniel Freeman, psicólogo inglês e professor de psicologia clínica da Universidade de Oxford, em seu livro Ansiedade. Também pode ser estudada como parte de um mecanismo biológico ligado à sobrevivência da espécie. Ela pode ser mobilizadora, no sentido de fazer com que um indivíduo se mova em direção a algum objetivo concreto, como resolver um problema de ordem prática, ou em direção a algo subjetivo, como a mudança de um hábito. A ansiedade em grau elevado pode paralisar e assumir a forma de patologias, os transtornos de ansiedade. Enquanto objeto da psique humana, é complexa e multifacetada, suscetível a influências internas e externas.

Em entrevista em seu consultório em São Paulo, Pedro de Santi, psicanalista e professor de teoria psicanalítica na PUC-SP, especialista em estudos sobre o consumo, define a ansiedade como uma “inquietude”. “Somos seres vivos, vitalizados, e essa própria vitalidade gera uma inquietude. Uma palavra para descrever isso em inglês é uneasiness [quem usa isso é o filósofo Thomas Hobbes, 1588-1679], que quer dizer ‘eu nunca estou de boa’. O humano é ‘desassossegado’, nossa própria vitalidade, nossa própria pulsionalidade, lança a gente na urgência de encontrar objetos, coisas através das quais possamos veicular nossa energia. Então tem uma ansiedade de fundo que é do humano. Outra coisa é nosso ambiente, que superestimula, que nos superdemanda e aumenta essa ansiedade. Mas mesmo que o ambiente estivesse calmo eu não seria um monge zen, eu teria uma inquietude intrínseca, que não é do mal. Se consigo transformar essa ansiedade em projeto, em meta, isso é o que move minha vida.”

 

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