MOVIMENTO LIVRE

Por: Dani Mazzarella e Daiana Lourenço, professoras do berçário na Projeto Vida

Desde o início da vida, a experiência do bebê passa pelo corpo. É através dele que expressa suas sensações, o conforto ou desconforto, o incômodo por sono ou dor e a alegria, com sorrisos e gestos de pernas e braços. É importante deixar que tenha iniciativas próprias de movimentos livres e espontâneos, pois desde o nascimento tem a necessidade de mobilidade e ação.

Na abordagem Pikleriana, a criança pode mover-se com liberdade e sem restrições. Não há necessidade da intervenção direta do adulto para ensiná-la a girar ou adotar diferentes posições que ela aprende no decorrer de seu desenvolvimento. Quando o bebê é colocado deitado de costas para o chão, sente-se confortável e seguro para conhecer suas habilidades motoras e, assim, passará por todas as etapas do desenvolvimento, cada uma a seu tempo.

O bebê livre aprende como chegar a cada posição após conhecer os movimentos de seu corpo e descobrir através das explorações o que pode fazer com ele. Quando desde pequena a criança tem liberdade e conquista de movimentos, aos poucos, obtém o controle de seu próprio corpo e de suas ações, ampliando possibilidades de expressar-se como ser no mundo. 

A autonomia nesse contexto está ligada à capacidade de se mover por iniciativa própria, de acordo com sua vontade e competência. É importante deixar o bebê no chão, em um espaço seguro e estável. Quando permanece preso por cintos e em posições que limitam seu corpo,  é privado de vivenciar os movimentos tão necessários para seu pleno desenvolvimento.

É natural que um bebê acostumado a ficar longos períodos no colo ou em cadeirinhas reclame quando colocado no chão. Nesses casos, nós educadores ajudamos a conquistar ou recuperar a autonomia motora, deixando-o no chão e ficando ao lado dele até que tenha segurança para ficar sozinho. Com o tempo, a tendência é que se sinta cada vez mais confortável e passe a se mover no chão por iniciativa própria e a brincar com liberdade.

Com deslocamento livre, a criança tem a percepção do espaço e o interesse por tudo que está em seu entorno, escolhendo a posição mais segura e indo em busca dos materiais de seu interesse.

Para isso, é preciso manter um espaço amplo e organizado com mobílias adequadas que permitam e estimulem indiretamente a criança a movimentar-se, materiais seguros que não tragam risco à sua integridade física e roupas confortáveis para que possa descobrir e exercer suas habilidades motoras enquanto brinca. Quando existe a liberdade de movimentos, raramente os pequenos pulam etapas, mesmo existindo diferenças individuais no ritmo de cada um.

É preciso confiar na capacidade e autonomia do bebê, aceitando cada etapa e oferecendo condições para que, por meio de seus atos independentes, possa vivenciar sua competência. O papel do educador não é interferir diretamente nas conquistas das aquisições motoras, apressando ou estimulando, pois acaba atrapalhando o desenvolvimento psicomotor.

Entretanto, não interferir não significa abandoná-lo, mas estar sempre por perto, com troca de olhares, com falas e uma mediação quando necessário. É importante observar, acompanhar e permitir que viva a infância, sem interferência invasiva.

O prejuízo de uma criança que não tem liberdade para explorar e conhecer o mundo não está apenas relacionado à questão física, mas atinge também aspectos emocionais que se moldam através dos inúmeros movimentos experimentados. Estar presa em uma cadeirinha, por exemplo, a impede de desenvolver sua força de vontade e mover-se atrás de seus interesses.

Segundo Pikler, é por meio das atividades livres que as crianças aprendem sobre autonomia. “A criança que consegue algo por sua própria iniciativa e por seus próprios meios adquire uma classe de conhecimentos superior àquela que recebe a solução pronta”. 

Fonte: “Vínculo, movimento e autonomia”, de Suzana Soares

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