Finlândia: autonomia e inovação

Por Mônica Padroni, Silvia Elayne de Oliveira e Lêda Cruz

Desde que nos unimos para criar a Escola Projeto Vida, há quase 29 anos, compartilhamos o objetivo de construir um espaço de aprendizagem inovador, inclusivo e que preparasse jovens e crianças para a vida. Nessa trajetória, estamos sempre em movimento, buscando as melhores práticas para oferecer educação de qualidade, afinadas às demandas do mundo em transformação. Com essa ideia em mente e no coração, embarcamos para a Finlândia em outubro, para participar de um intercâmbio profissional no país nórdico, símbolo de excelência no ensino.

Visitamos escolas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio, Universidades e participamos de formações com profissionais referências internacionais e responsáveis pela reestruturação do modelo educacional finlandês. Na mala, trouxemos de volta ao Brasil e à Projeto Vida aprendizados, inspirações e validações de práticas e ações que já adotamos há anos. 

Isso tudo vem sendo e continuará a ser aplicado no cotidiano da nossa escola, mas destacamos aqui os principais pontos que gostaríamos de dividir com toda a comunidade: estudantes, famílias, funcionários e educadores.

Autonomia
Um dos pontos que mais chamou a atenção nas escolas finlandesas foi a formação de crianças autônomas. Desde pequenas, são estimuladas e ensinadas a cuidarem de si mesmas, das relações com as outras pessoas e do espaço. Observamos o exercício da autonomia o tempo todo: antes mesmo de aprenderem a ler, os pequenos usam cartões ilustrados para orientar que roupas devem vestir, de acordo com a temperatura (questão muito importante para um país extremamente frio como a Finlândia); um grupo saiu da sala a pedido da professora e usou os espaços livremente, enquanto ela ficou em classe com alguns alunos que precisavam de mais orientação em uma atividade de alfabetização (a professora não se preocupou onde iriam, pois sabia que voltariam); alunos de 6º ano resolveram sozinhos a não participação de alguns membros do grupo em um trabalho conjunto. 

A autonomia é estendida também aos professores, que têm muita liberdade para aplicar o plano nacional de educação (equivalente à nossa BNCC) da forma como julgarem melhor com cada turma. A atuação dos docentes nos leva a uma segunda característica da educação na Finlândia, a valorização dos professores.

Profissão de valor
Para construir um sistema educacional de destaque, é preciso ter excelentes professores. A qualidade na formação desses profissionais começa pela valorização social da carreira. Ser professor na Finlândia é sinônimo de prestígio e respeito da sociedade. Os cursos 

de Pedagogia são muito procurados pelos jovens, que podem escolher se especializar em educação especial, séries iniciais ou séries finais. A graduação dura cinco anos e já inclui o mestrado. Ainda assim, os recém-formados passam um ano trabalhando ao lado de um tutor mais experiente, em um programa de residência pedagógica, antes de assumirem uma sala como professores titulares.

Políticas públicas

Visitar as escolas públicas finlandesas e conhecer o sistema educacional do país deixou claro que o modelo adotado faz parte de políticas públicas que colocam a Educação em papel de destaque. A escola é um pólo social, algumas ficam abertas aos finais de semana para a comunidade, englobam ações de saúde e até mesmo fazem a ponte entre o início e o fim da vida, quando, por exemplo, creche e casa de repouso são construídas lado a lado, sem muros que as separam. Há, inclusive, creches que funcionam por 24 horas, para atender aos pais que trabalham à noite. Por ter um inverno muito rigoroso, há incentivo governamental para as pessoas conseguirem sair de casa e conviverem e a escola é um desses pontos de encontro.

Contato com a natureza 

Estar ao ar livre é muito importante para os finlandeses. Todas as escolas têm bastante espaços ao ar livre e contato com a natureza, especialmente para as crianças pequenas. Consideram a natureza como grande fonte de aprendizado e estar em espaços naturais, observando os ciclos da vida, faz parte do processo de educação. O horário de funcionamento das escolas é das 8h às 15h, mas o tempo em sala de aula é o mesmo do Brasil. Isso porque eles têm duas horas de brincadeiras por dia: a cada 45 minutos de aula, têm 15 minutos de descanso na área externa! Há também uma preocupação em manter o corpo em ação, com uma alimentação bem cuidada.

Cooperação, não competição

Fomos para a Finlândia por ser uma referência em educação com excelentes resultados acadêmicos, mas com caráter humanista. O foco não são os resultados em si, mas educar crianças e adolescentes para terem uma boa qualidade de vida. Há uma nítida preocupação que a escola seja um lugar de boa convivência e acolhedor, onde os alunos gostem de permanecer e se envolvam nos projetos. Esses, por sua vez, estimulam a cooperação e o trabalho em equipe, não a competição.

Assim, alguns mitos rondam a educação finlandesa, como o de não haver lição de casa, por exemplo. Não é verdade, as crianças fazem lição de casa, mas tanto a escola quanto as tarefas não são massantes.

Inovação

O foco na autonomia do estudante, na valorização da brincadeira e da natureza, na qualidade de vida e na cooperação já mostra o quanto a educação é inovadora. Mas a Finlândia também é referência em design inovador e aplica esse conhecimento no sistema educacional. Os espaços são pensados para que professores e alunos utilizem as metodologias ativas de aprendizagem. Móveis modernos, ergonômicos e versáteis permitem diferentes configurações e favorecem o trabalho em equipe. Não presenciamos aulas expositivas, com as carteiras enfileiradas. Ao invés disso, espaços diversificados, alunos em pequenos grupos fazendo a autogestão de suas atividades. Os educadores entendem que o trabalho em grupo favorece tanto a aprendizagem dos conteúdos quanto das habilidades necessárias para a vida. Também investem em aprendizagem para o cotidiano, com atividades “mão na massa”. Tudo isso apoiado por recursos tecnológicos.

Cultura

Ao visitarmos uma escola, conhecemos toda uma cultura, pois características sociais estão muito presentes. Finlândia e Brasil têm características muito diferentes e, sem dúvida, intercâmbios como este ensinam a todos nós: enquanto aprendemos e avaliamos nossas ações com um país referência mundial de Educação, eles admiram nossa capacidade de expressão e criatividade.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *